Nomes, estatutos e títulos em Atlântida


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 Atlântida


Em Atlântida

Os atlantes possuem uma minuciosa hierarquia de estatutos, mas esta é só parcialmente determinada pelo nascimento. Ao nascer, um atlante livre que não seja membro de uma família real ou imperial é considerado e tratado como um grau hierárquico inferior à sua mãe, mas não inferior a bucios (plebeu livre da mais baixa categoria).

O estatuto dos cidadãos adultos livres costuma ser mostrado pelo número e composição de uma corrente de metal usada a tiracolo; o de servos, por uma coleira. Normalmente, só um bucios apareceria em público sem a insígnia do seu estatuto.

 

Grau

equivalência aproximada

tratamento

insígnia

status

Recursos típicos

Número no

reino de Atlântida (*)

Hierarquia típica

Vatarcios

Imperador

-vatar, Atlas

coroa imperial de ouro

4

+13

dois

18

Quarcios

Príncipe (membro da família imperial)

-quar

coroa principesca de ouro

+5 a +9

Cerca de três mil

10

Tarcios

Rei, soberano

-tar

coroa real de ouro

3

+7 a +10

Só nos outros reinos

13 a 17

Kalcios

Infante (membro de uma casa real)

-kal

coroa simples de ouro

2

+3½ a +8

Só nos outros reinos

7

Vahcios

Grão-duque, Arquiduque / Condestável

-va

três correntes de ouro

+6 a +9

Cerca de 100

12

Kucios

Duque / Marechal

-ku

duas correntes de ouro e uma de prata

2

+5½ a +8

Cerca de 300

11

Hocios

Marquês / Grão-Mestre

-ho

duas correntes de ouro

2

+5 a +7

Cerca de 1.000

10

Pascios

Conde / General

-pas

uma corrente de ouro e duas de prata

2

+4½ a +6

Cerca de 3.000

9

Cicios

Visconde / Grande Oficial

-ci

uma corrente de ouro e uma de prata

+4 a +5

Cerca de 10.000

8

Nemcios

Barão / Comendador

-nem

uma corrente de ouro

+3½ a +4

Cerca de 30 mil

7

Hincios

Baronete / Capitão-mor

-hin

três correntes de prata

1

+3 a +3½

0,1% da população

6

Zehcios

Grande Cavaleiro / Oficial

-ze

duas correntes de prata e uma de bronze

1

+2½ a +3

0,3% da população

5

Siocios

Cavaleiro / Centurião

-sio

duas correntes de prata

1

+2 a +2½

1% da população

4

Zorcios

Escudeiro / Cadete

-zor

uma corrente de prata e uma de bronze

½

+1½ a +2

3% da população

3

Quancios

Dom / Decurião

-quan

uma corrente de prata

½

+1 a +1½

10% da população

2

Kehcios

Senhor / Guerreiro

-ke

três correntes de bronze

0

+½ a +1

30% da população

1

Bincios

Plebeu honrado

-bin

duas correntes de bronze

0

0 a

25% da população

½

Bucios

Plebeu, vilão

-bu

uma corrente de bronze

0

-½ a 0

10% da população

0

Poscios

Vassalo, cliente

-pos

coleira de prata

0 a +1

1% da população

Nucios

Servo

-nu

coleira de couro

-1

-1 a 0

15% da população

-1

Rarcios

Escravo

-rar

coleira de bronze

-2

-2 a -1

5% da população

-2

Varcios

Não-pessoa

-var

coleira de ferro

-3

1% da população

-3

(*) As proporções são algo diferentes em outros reinos e nas colônias. Nestas, a maioria da população recai na categoria de Bincios ou mesmo Bucios.

 

Um senzar é tratado formalmente por seu nome de clã materno, seguido do sufixo correspondente a seu estatuto por pessoas de clã diferente, por seu nome de família materno, seguido do sufixo de estatuto, entre membros do mesmo clã, ou por seu nome pessoal, seguido do sufixo de estatuto, por membros da mesma família ou por um senhor dirigindo-se a um vassalo, servo ou escravo.

Um senzar notável por suas realizações, feitos ou aventuras pode agregar a seu nome um cognome e provavelmente há de preferir ser chamado por esse cognome, seguido do sufixo de estatuto. Seja homem ou mulher, será considerado como fundador de um novo ramo do clã ou “família”. Se for mulher, seus filhos e sobrinhos por parte de irmãs usarão o cognome como novo nome de família, mas se for homem, apenas seus sobrinhos por parte de irmãs. Entre os senzares, não há exceção à regra da transmissão exclusiva do nome de família por via materna (usualmente biológica, mas às vezes adotiva).

Apenas entre cônjuges, irmãos, pais e filhos, avós e netos, amantes, amigos íntimos e, às vezes, camaradas (mesmo de estatutos diferentes) pode-se dispensar o sufixo de estatuto, substituído pelos sufixos -chin (amor, tesão), -ar (querido pai, filho, irmão etc.), -bã (amigo) e -pu (colega, sócio, camarada) ao nome pessoal.

Nomes de clãs senzares derivam geralmente de nomes de animais, plantas ou fenômenos naturais; os de família, de alguma característica ou feito notável do ancestral tido como fundador da família. Nomes pessoais são mais ou menos arbitrários e podem ser livremente inventados, ou dados como homenagem a um herói, amigo ou parente morto.

Assim, um senzar chamado Zi Temtes Sistu (clã Zi, ou “leão”, família Temtes, “que resiste ao inimigo”, nome pessoal Sistu, “do pântano oriental”) que tenha o estatuto de quancios será chamado Zi-quan pela maioria das pessoas (inclusive subordinados), Temtes-quan por membros de outra família do mesmo clã, Sistu-quan por membros de sua própria família, Sistu-chin por sua amante, Sistu-ar por seus parentes mais próximos e Sistu-bã por amigos e amigas e Sistu-pu por um camarada de armas ou equivalente.

Outras raças atlantes usam nomes com outra estrutura: os cários, por exemplo, não usam nome de clã, mas o nome da família paterna seguido pelo nome do pai e o sufixo -ci (filho de) antes do nome pessoal; já os tlavatlis usam apenas nome de clã materno e nome pessoal e são flexíveis quanto ao uso do sufixo -pu, usado com qualquer outro tlavatli (ou mais cautelosamente, com membros de outras raças) com quem se tenha uma relação mais ou menos de igual para igual.

O uso do sufixo de estatuto correto, porém, é importante para todos os atlantes, que costumam usar insígnias de seu estatuto na forma de trajes, colares ou ao menos anéis adequados. Usar um sufixo que pressupõe uma amizade ou intimidade não reconhecida pelo outro (ao menos no momento dado) é desrespeitoso e usar um sufixo de estatuto inferior ao devido é ofensa grave, a menos que se trate de um estranho que cometa um engano desculpável (por falta de insígnias visíveis de estatuto, por exemplo). Na dúvida, é preferível conferir a um estranho um estatuto mais elevado que o aparente, transferindo ao outro a obrigação de corrigi-lo, se for o caso.

Cônjuges e familiares próximos não compartilham necessariamente do mesmo estatuto, mas é polido chamá-los pelo sufixo do parente próximo de estatuto mais elevado que esteja vivo, agregado de uma partícula que define o parentesco: bor- (cônjuge), in- (irmão ou irmã), ci- (filho ou descendente direto), ou chan- (pai, mãe ou ascendente direto). Se Zi Temtes Sistu, o quancios, casar-se com uma mulher de estatuto mais elevado – zecios, por exemplo – poderá ser chamado borzecios (esposo de zecios) e tratado como Zi-borze. Se, em vez disso, for seu filho ou neto quem atingir esse estatuto, poderá ser chamado chanzecios (pai de zecios) e tratado como Zi-chanze. Caso seu filho ou neto seja de estatuto inferior ao seu, esse filho ou neto poderá ser chamado (se for do mesmo clã) ciquancios e tratado como Zi-ciquan. Na prática, portadores dessas partículas são tratados em sociedade como de estatuto ligeiramente inferior ao do parente de estatuto mais elevado, mas não gozam dos mesmos direitos civis e políticos que este e perdem o privilégio social caso o parente venha a falecer ou perder seu estatuto.

O lugar-tenente ou imediato de um soberano, alto funcionário ou comandante militar de grau elevado, independentemente de seu estatuto real, é designado com a partícula xi- e tratado como ligeiramente inferior ao seu chefe. Assim, se Sistu for designado vice-rei pelo imperador, provavelmente já terá sido antes elevado a vacios e terá direito a ser chamado Zi-va, mas na condição de vice-rei será tratado como Zi-xivatar.

Todas as crianças são avaliadas durante a infância por seus mestres e pelos juízes e sacerdotes de sua comunidade e estes, de acordo com seu julgamento de sua capacidade física, mental e moral, podem reclassificá-las para cima ou para baixo até o início da idade adulta. Na prática, é raro que sejam promovidas e rebaixadas mais de um grau, mas uma vez em mil um talento excepcional pode fazer uma criança saltar até cinco graus antes da maioridade.

Uma vez adulto, um atlante sobe, desce ou mantém seu estatuto em função de seus atos e realizações, segundo o julgamento de conselhos de atlantes de estatuto superior. A mera acumulação de riqueza não é suficiente para garantir a elevação de estatuto: é preciso gastar boa parte dela em benefício público – construir, melhorar ou restaurar monumentos e logradouros públicos, financiar festas populares e religiosas, fazer doações a templos, distribuir alimentos aos pobres etc.

Um grau elevado pode ser atribuído a um guerreiro, sacerdote, mago, mercador, prostituta ou artesão cujo mérito seja reconhecido – ou mesmo a um trabalhador não qualificado que demonstre virtudes nobres e heróicas. Todas as mudanças de estatuto são publicamente registradas e anunciadas. A posse de estatuto adequado confere privilégios legais e políticos (inclusive voto e participação em conselhos) e é necessário (não suficiente) para deter cargos públicos, militares ou religiosos.

Os estatutos estritamente hereditários (transmitidos de mãe para filho) são os de quarcios (membro da família imperial de Atlântida) e kalcios (membro de uma família real de um dos nove reinos de Poseidônis federados à Atlântida, ou de um reino estrangeiro reconhecido pelo Império como independente). O imperador ou Atlas, bem como sua irmã mais velha (que é a imperatriz propriamente dita, têm o grau de vatarcios, que não é estritamente hereditário: caso os filhos e sobrinhos não lhes pareçam suficientemente qualificados, podem designar como herdeiro qualquer quarcios que seja pelo menos onze anos mais jovem, que será adotado como filho pela imperatriz. Os reis têm o título de tarcios, cujas regras de transmissão variam um pouco de reino para reino mas também não seguem, em geral, a estrita hereditariedade e o herdeiro sempre é escolhido entre os kalcios da respectiva família real, que nos nove reinos são sempre de origem senzar.

As mulheres têm direitos semelhantes aos homens em quase todos os aspectos, mas os estatutos de vatarcios e tarcios são reservados ao sexo masculino, porque implicam o comando de forças armadas e estas são predominantemente masculinas, com exceção das tropas de górgonas e de amazonas. Por outro lado, as mulheres podem ter qualquer cargo religioso ou civil, a imperatriz tem um importante papel cerimonial e político e a prefeitura da cidade de Atlântis é reservada a uma mulher competente da família imperial.

O máximo a que um atlante sem sangue real ou imperial, homem ou mulher, pode subir é ao grau de Vahcios, exigido de ministros imperiais, comandantes supremos do exército e da marinha, vice-reis e sumos sacerdotes e sacerdotisas do império. Conferi-lo a atlantes de graduação inferior é atribuição do Imperador, mas esse título também é atribuído automaticamente a governantes hereditários ou vitalícios de grandes estados vassalos semi-independentes e os reis federados podem concedê-lo a súditos excepcionais com autorização do imperador.

Abaixo, vêm os graus de Kucios, Hocios, Pascios, Cicios e Nemcios, exigidos de conselheiros imperiais e reais, governadores, altos funcionários, comandantes das falanges imperiais e altos sacerdotes. Podem ser concedidos a empreendedores excepcionalmente destacados, grandes sábios e artistas, grandes mercadores e armadores e a governantes de pequenos estados vassalos e suas famílias (quando hereditários). Representam a aristocracia atlante e formam, nas províncias, nas grandes cidades e em Atlântis, os conselhos de notáveis que exercem a administração local e dentre os quais são escolhidos os administradores.

Os títulos de Hincios, Zehcios e Siocios qualificam médios funcionários do Império, oficiais militares, sacerdotes, burgomestres de aldeia e juízes e podem ser conquistados por comerciantes médios e capitães da marinha mercante. Constituem uma espécie de pequena nobreza e exercem a administração de distritos e cidades pequenas.

Zorcios qualifica para o treinamento como oficial e pode ser concedido a um mestre artesão ou profissional destacado. Quancios qualifica para o posto de decurião no Exército e normalmente é conferido a um artesão hábil, um soldado de mérito, um comerciante estabelecido ou um camponês destacado em sua vila. Esses dois estatutos caracterizam o núcleo da “classe média” atlante. São o objetivo mínimo de qualquer atlante com ambição e conferem a participação em conselhos de aldeia e de vizinhança.

O título de Kehcios é o mínimo conferido automaticamente a todo soldado que esteja servindo ou tenha cumprido o serviço militar sem uma baixa desonrosa, a uma mulher que tenha criado pelo menos um filho ou filha até a idade adulta ou a um artesão ou equivalente que tenha sido aceito como companheiro por sua guilda. A maioria dos camponeses com direitos sobre a terra possui esse estatuto, acessível a todo trabalhador qualificado e que qualifica para o direito de possuir servos ou escravos.

Bincios é o estatuto de um atlante pobre, normalmente um aprendiz ou trabalhador não qualificado que jamais prestou serviço militar, vendedor ambulante ou camponês sem terra, mas honrado e de vida estável.

Bucios é o estatuto mais baixo de um homem inteiramente livre, mesmo que seja um mendigo e é atribuído a todo jovem filho de bincios que ainda não formou família nem foi admitido como aprendiz de uma guilda. Filho de mãe bucios é também bucios. Um servo ou escravo recém-alforriado também permanece como bucios por onze anos, pelo menos.

 

Servos e escravos

 

Poscios é um estatuto de vassalagem ou servidão parcial, em geral adotado voluntariamente por pessoas que desejam a proteção de um atlante mais poderoso ou simplesmente adulá-lo. Um poscios compromete-se por toda a vida a prestar certos tipos de serviços a seu patrono dentro de limites bem definidos. Pode dedicar-se a determinado serviço dois a quatro dias por quatorzena, um a três meses por ano, ou fornecer determinada quantidade de produtos por mês ou por ano (caso seja artesão ou comerciante). Além disso, deve prestar homenagem ao patrono e ajoelhar-se em sua presença. Para os serviços que lhe são prestados, o patrono fornece alojamento, alimentação, uniformes, armas, ferramentas e matérias-primas na medida do necessário, mas não é obrigado a remunerá-lo, embora seja de bom-tom oferecer uma recompensa simbólica ou uma gorjeta. Atendidas suas obrigações para com o patrono, o poscios pode prestar serviços remunerados a terceiros, mas o patrono não tem nenhuma obrigação em relação a doenças ou à velhice do poscios. O filho de mãe poscios nasce como bucios.

Nucios é um estatuto servil, mas com relativa dignidade. Um atlante livre pode ser reduzido a esse estatuto se for incapaz de pagar suas dívidas ou se for vendido pelos pais antes de atingir a maioridade. Também há os que se vendem voluntariamente em busca da segurança que não conseguiram encontrar como cidadãos livres e há os rarcios (escravos) que são elevados a essa condição a título de recompensa, ou cujo senhor lhes permitiu comprar esse estatuto. O filho de mãe nucios é também nucios. Um nucios está a serviço do seu senhor por tempo integral e não tem direito a outra remuneração além de alojamento, roupas e alimentação, mas não pode ser submetido a castigos cruéis ou indignidades, nem forçado a executar serviços alheios à sua qualificação. Pode ser degradado a rarcios (escravo) se tentar fugir ou cometer uma ofensa grave ao senhor ou à sua família, mas apenas com ordem de um juiz. Tem direito a formar família e possuir bens (mas não seus próprios servos e escravos, mesmo que tenha dinheiro para comprá-los) e freqüentemente recebe algum pagamento de seu senhor a título de incentivo, mas não pode vender seus serviços a terceiros. Eventualmente, pode comprar a própria liberdade, ou de sua família. As crianças não são obrigadas a trabalhar antes dos sete anos e devem receber quatro anos de educação; caso mostrem aptidão acima da média, são alforriadas pelo Estado, que indeniza seu senhor. São tipicamente serviçais domésticos de certa qualificação, tais como guardas pessoais, caseiros, lacaios, cozinheiros, concubinas, mordomos, governantas e amas. O nucios pode ser dado ou vendido, mas apenas junto com pais, cônjuge e filhos, se tiver família. Devido às limitações do poder do senhor sobre os nucios, estes costumam valer no mercado a metade de um rarcios ou varcios com as mesmas capacidades, mas poucos senhores confiariam em escravos de estatutos mais baixos.

Rarcios equivale a escravidão. Um atlante livre pode ser reduzido a esse estatuto por cometer crimes graves, tais como assalto à mão armada, estupro, homicídio e agressão a pessoas de estatuto elevado, ou por certa quantidade de reincidências em violações menores, tais como furto, fraude e agressão a pessoas de estatuto igual. Nesse caso, são degradados por sentença judicial e leiloados pelo Estado, ou usados por este em tarefas desagradáveis. Um nucios, como se viu acima, também pode ser degradado a rarcios. Mais freqüentemente, os rarcios são prisioneiros de guerra e seus descendentes, concedidos pelo Estado a comandantes vitoriosos ou guerreiros destacados. O filho de mãe rarcios é também rarcios. O rarcios não tem direito legal a formar família ou possuir bens e é obrigado a executar qualquer serviço exigido pelo senhor, mas o senhor não pode matá-lo ou mutilá-lo, embora possa castigá-lo fisicamente “com moderação”. A personalidade humana do rarcios é reconhecida: o ato de matá-lo é julgado como assassinato. Por concessão do senhor, pode receber alguma recompensa e mantê-la a título de pecúlio, talvez até usá-la para comprar sua liberdade, mas o senhor pode também retirá-la quando bem entender. O rarcios pode ser dado ou vendido individualmente, salvo crianças com menos de sete anos, que não podem ser separadas das mães. Em geral, são serviçais domésticos de categoria inferior, incluindo faxineiros, ajudantes de cozinha e em outros serviços. O rarcios pode ser elevado a nucios por decisão irrevogável do patrão comunicada ao juiz, o que geralmente acontece caso lhe seja destinada uma tarefa de certa responsabilidade.

As crianças nucios e rarcios não são obrigadas a trabalhar antes dos sete anos e devem receber quatro anos de educação; caso mostrem aptidão acima da média, são alforriadas pelo Estado, que indeniza seu senhor. Mulheres grávidas devem ser poupadas de trabalhos excessivos e têm o direito de amamentar seus filhos. Um senhor pode ser judicialmente obrigado a vender servos ou escravos (ou, se preferir, alforriá-los) caso abuse de suas prerrogativas. Em geral, um senhor pode alforriar seus nucios ou rarcios a qualquer momento enquanto forem jovens e saudáveis, mas se não o fizer, responde por seu sustento na doença e na velhice. Um rarcios que tenha sido reduzido a essa condição por condenação judicial, porém, só pode ser alforriado com autorização de um juiz e raramente isso é concedido antes de onze anos de serviço.

Como forma de proteção ao artesão e camponês livre, a lei atlante geralmente não permite ao senhor alugar os serviços de nucios e rarcios a terceiros ou vender o produto do seu trabalho: este precisa ser inteiramente consumido pela família do senhor. Excetuam-se senhores relativamente “pobres”, com não mais de quatro escravos e estatuto não superior a zorcios: estes podem usar servos e escravos como ajudantes caso exerçam uma atividade profissional ou autônoma, tal como a de artesão, camponês ou pequeno comerciante, mas só pode viver inteiramente do trabalho dos nucios e rarcios por permissão especial, normalmente concedida apenas aos fisicamente incapacitados.

Varcios é um estatuto de degradação extrema, no qual o indivíduo é totalmente despido de personalidade jurídica e de direitos – torna-se uma não-pessoa, uma cabeça de gado para efeitos jurídicos. Um homem livre pode ser reduzido a esse estatuto por cometer crimes muito graves ou “hediondos”, tais como deserção, traição, tentativa de assassinato de superiores ou assassinato de iguais ou inferiores com sérios agravantes. Nesse caso, é publicamente leiloado pelo Estado, ou usado por este em tarefas extremamente desagradáveis ou perigosas. Poscios, servos e escravos podem ser degradados a essa condição caso agridam ou permaneçam omissos ante uma agressão a qualquer membro da família do senhor, caso participem, mesmo passivamente, de uma revolta e caso resistam à captura se tentarem fugir (a mera fuga do rarcios não qualifica para degradação a varcios, mas um juiz pode autorizar o senhor a açoitar e encadear, ou mesmo a mutilar o escravo, em caso de reincidência). Caso um indivíduo possua bens ou propriedades ao ser reduzido a varcios, estas são distribuídas aos herdeiros legais como se tivesse morrido. O proprietário pode livremente matá-lo, torturá-lo ou mutilá-lo. Ferir ou matar um varcio não é crime contra a pessoa humana, mas contra a propriedade: o proprietário pode exigir uma indenização. Muitos varcios acabam vendidos para serem mortos em degenerados espetáculos de sadismo, mas isso deve ser feito em recinto fechado – maltratar varcios ou animais em público é considerado uma ofensa à sensibilidade popular. O estatuto de varcios, que não é hereditário e sempre resulta de uma condenação, é normalmente perpétuo e irrevogável, a menos que a inocência do condenado seja posteriormente provada. Um filho de mãe varcios é sempre dado a uma mulher rarcios para ser adotado e criado como rarcios.

Um racios ou varcios tipicamente vale no mercado o equivalente a seis ou sete anos de salário (2.000 vezes a renda diária) de um cidadão livre que faça o mesmo trabalho e um nucios, a três anos (1.000 vezes a renda diária), porque seus senhores têm menos direitos e mais obrigações em relação a eles. Mesmo assim, os nucios geralmente têm maior valor, pois fazem trabalhos mais qualificados.